Verdade e Revelação

Que fácil é ser enganado por outro. Cada vez menos as pessoas possuem uma capacidade de pensar por si mesmas e dar uma conclusão coerente em suas opiniões que em muitos casos são meras repetições do que disse outros. Mas realmente existirá algo de tão original no pensar? Poderia ser o mesma conclusão, mas desde que cheguemos com nossos próprios passos as  essas respostas fundamentais de nossa vida,  acho que a sociedade teria uma grande ferramenta contra a liquidez de opiniões, as ondas de ideologias frenéticas que mudam mentalidades, colocando rivalidade em gerações com diferença de menos de 50 anos. Se o que antes era fundamental mudou, agora então estamos sem fundamento.

Perguntar ajuda a entender

A discussão que tem lugar na Suma de Teologia na questão 16, artigo 5. Nos traz a mente um dos velhos problemas apologéticos da história da Igreja. Deus é a verdade e fundamento de todas as coisas? Lembro uma vez que havendo estudado um pouco sobre o tema, ousei perguntar a uma pessoa conhecida, se sabia o que era a verdade. Ela primeiro me respondeu que sim, com um olhar um tanto orgulhosa. Logo, o que quase nunca se espera, minha pergunta foi; o que é? E me surpreendeu como mudava o seu rosto. Parecia que eu tinha feito uma pergunta inesperada. Depois da pausa e da cara que fez, ela me respondeu; é a realidade das coisas. Eu despejei outra série de perguntas para cada objeção dela. No final, já quase desistindo, ela lembrou de uma resposta que provavelmente eu não negaria. E disse: Deus! Lembrando que Cristo no evangelho disse “Eu sou o caminho a verdade e a vida”(Jo 14, 6). Aí de fato fiquei sem palavras.

Várias coisas podemos notar neste diálogo. Uma delas é que a primeira pergunta veio respondida bem. Ela sim sabia o que era a verdade. Pelo menos tinha um conceito de verdade, mas não tinha provado explicar. Mas como a maioria das pessoas sabia distinguir algo verdadeiro de algo falso. A outra curiosidade por assim dizer é que sua segunda resposta, foi automática em um aspecto que ela tinha por estritamente conectada com a verdade. Sua mente deve ter funcionado assim, mesmo sem ela ter notado; que se algo não é real, logo é falso e assim não é verdadeiro. Por tanto a verdade é a realidade das coisas. Ou de outro modo, perguntando-se se existe algo real que não fosse verdadeiro. Mas não sei se você notou? Temos dentro de nós a tendência de dizer que uma coisa é em outra coisa. E assim pensamos ter assegurado nossa definição.

Explicito estes mecanismos lógicos naturais, para entender que buscamos de modo natural responder a este problema da verdade. O problema sobre o que é, tendo em consideração que já possui certezas que facilitaram o entendimento do texto. Se acopla de tal modo: Se podemos dizer que a verdade é outra coisa, pensamos que esta segunda coisa deve ter um sentido mais amplio e profundo. Não teria sentido se ela me dissesse que a verdade é um objeto específico. Pois a proxima pergunta seria, só aquele é? E logicamente não. Por isso a tendência de buscar princípios mais internos e sólidos é o mecanismo natural de que nos servimos para julgar o que é uma coisa ou outra. Para que se entenda melhor, se eu pergunto o que é um livro? Não me responderia, um livro é um livro, nem um livro é um objeto. Pois, primeira anula a pergunta pela evidencia e a segunda resposta não abarca a profundidade, existe milhares de objetos que não são livros. Assim que nossa investigação natural vai em busca da essência das coisas.

Sem perder a linha de raciocínio, ao dizer que a verdade é a realidade, ela queria dizer as coisas reais são verdadeiras e no conjunto de tudo o que chamamos real, podemos dar o nome de verdade. Não uma realidade especifica, mas ao princípio de realidade é a verdade.

 

Voltando ao assunto 

Porém este artigo não quer tratar sobre a verdade em geral. Para isso estão os livros e manuais de filosofia. O ponto que busco estudar junto com o leitor é a da última resposta dada. A verdade é Deus.

Por que foram importantes os passos que demos até aqui?. As series de perguntas que fiz, das quais já não me lembro de todas, mostrou  que ela mudava a resposta tentando explicar a verdade, mas não mudava o conceito que tinha de verdade na sua mente. Isso a fez dar respostas com certa coerência, mas dando voltas algumas vezes. Em um determinado momento parou em algo que ela considerava suficientemente sólido. Para dizer deste modo; a conexão entre a primeira resposta e a última, foi que Deus é a realidade mais solida que ela conhece. Se Deus não é princípio de realidade e por tanto também de verdade, nada mais o seria. Se a resposta estiver correta, então pela fé também se conhece a verdade tanto quanto pelo estudo epistemológico e o uso da razão.

Assumindo o já visto, que ela conhecia a verdade, ao menos conceitualmente. Não ficaremos dando voltas em ceticismos. O que faltou para ela era dar mais “carne” a seu conceito, um maior conteúdo nocional e assim poder explicar. Os diversos tipos de negação da verdade já foram refutados a muito tempo, e insisto  de que estão nos livros. A única exceção que insiste en negar a verdade hoje em dia são os materialistas, empiristas e do tipo deterministas. E estes caras nunca nos vão dar a razão. Por que? Simplesmente porque para eles não existe razão ou certeza. Vivem da probabilidade e outros do determinado. Ou seja, não existe saída nem diálogo.

Assumimos que você leitor é uma pessoa normal de nossa sociedade, que toma decisões diárias e que precisa confrontar-se com ideias e opiniões constantemente. Para você serve o assunto da verdade, e a isso que vamos a referir-nos analisando a verdade em Deus.

Agora direcionando-nos ao texto de Santo Tomas de Aquino, as três dificuldades do artigo 5 da questão de número 16 são:

  • Se a verdade na nossa mente se dá na comparação da realidade e o conceito. Em Deus não existiriam tal comparação. Por que Ele é a realidade e não poderia ter um conceito fora de si mesmo. Logo em Deus não existe verdade.

 

  • Citando a Santo Agostinho: “A verdade é semelhança do princípio”. (Como tínhamos intuído pela pergunta feita a cima.) Acontece que Deus não tem semelhança com nenhum princípio e por isso não existe a verdade em Deus.

 

  • Dizemos que Deus é o princípio de todas as coisas. Como do ser e o ser princípio do bem. Também assim Deus não só é a verdade como é princípio da verdade, da qual deriva toda a verdade. Mas que alguém cometa pecado é uma verdade. E que isto venha de Deus é inaceitável. Logo em Deus não existe verdade.

 

Aprendendo com um Mestre

Neste breve artigo, mas nem por isso menos profundo. Santo Tomás de Aquino responde a estas dificuldades. Vou iniciar com a última, que parece ser a mais extravagante e continuamente usada por não crentes para atacar a Igreja e a fé católica. este problema inclui o fato do problema sobre o pecado no mundo ser incompatível com a existência de um Deus. Querer usar a verdade para derrubar a fé é um ato extremamente racionalista. Buscam contrastar conceitos de Deus, mais que a verdade sobre ele.

Como aqueles que dizem:

A Deus se atribui toda a perfeição, mas Deus não é capaz de criar outro igual a Ele, logo existe imperfeição e incapacidade. Então Deus ou não existe ou é imperfeito. Agora é impossível a existência de um Deus imperfeito, porque não seria Deus, por tanto Deus não existe.

Parece absurdo, mas algumas coisas nos fazem dar voltas na mente. Porque nosso modo de racionar é de tal modo que não vê privação, como privação senão como algo em si. A negação não é entendida em um primeiro momento sem reflexão. Como se eu dissesse: “Não pense em um elefante em cima de bola”. Seguramente ele apareceu na sua mente. Aqui acontece o mesmo porque consideramos verdades nas privações. Quando em realidade é um tipo de reflexo, ou seja, a consideração do nada como algo. A verdade do nada está em realidade na consideração do mesmo e não no objeto “nada”.

Aqui entra outra falácia que o Doutor Angélico chama de falácia do acidente. Que é predicar algo não necessário de uma proposição. Eu posso correr, logo eu sou um maratonista. Entende? Minha capacidade locomotora não está intrinsecamente e necessariamente ligada à minha profissão de maratonista. Que o ato pecaminoso seja verdadeiro, não indica a necessidade de que provenha de Deus. O ato de pecado é da pessoa. Deus não é um ventríloquo ou homem das marionetes.

A primeira dificuldade  do artigo 5 da Suma de Teologia nos leva outra vez ao início do nosso artigo, quando eu falava sobre os princípios que buscávamos para explicar a verdade das coisas. Nossa mente faz isso em um ato de juízo. Quando fazemos uma abstração da realidade para nossa mente, a comparamos com a realidade mesma. Por exemplo, quando eu perguntei a pessoa, o que é a verdade. Em sua cabeça surgiu o conceito de verdade, e para verificar a validez do conceito ela começou a dar voltas em coisas que poderia predicar a verdade. Buscava um modo de convalidar a verdade mesma “Verdaderear”, julgar se é ou não verdade, o que? A verdade. Assim notamos que ela se encontra neste processo de composição e divisão. Logo a objeção é que em Deus não existe uma verificação. Ele é e ponto, pois só poderia julgar-se a partir do que Ele não é. E como já explicamos, na privação não existe a verdade em si mesma, senão em referimento ao que existe. E agora existe ou não a verdade em Deus?

Para responder tanto a primeira como a segunda dificuldade: devemos distinguir que em Deus como princípio de todas as coisas, não existe algo anterior a Ele. Logo a analogia da verdade em Deus e a verdade em nós deve ser entendida de outro modo. Nós confirmamos a verdade em nossa mente, conhecemos a verdade. Deus cria a realidade que conhecemos e na medida em que faz isto cria a verdade que conhecemos. Agora, na mente de Deus se adéqua ao mesmo tempo que chaga a existência, a verdade criada que conhecemos, a verdade formal. Logo em Deus não existe distinção, em seu ser. Sendo Deus cria. E sendo criador é a Verdade por antonomásia. Aqui dizemos que em Deus, não é uma adequação ou conformidade, mas a perfeita identificação. Como se Verdade e Deus fossem uma mesma coisa. Que de fato é.

Para a segunda dificuldade, respondemos que o fato de que em Deus não existe discordância, via negationis, podemos dizer que Ele pode chamar-se a si mesmo semelhança com o princípio.  Não é pela semelhança de duas coisas em Deus, mas por não existir diferença, que se dá algo mais que semelhança, uma identidade(como acabamos de afirmar). Sabendo que Deus é o único que possui o Ser por si mesmo, Ele é o Ipsum esse subsistens. E só a Ele encaixa perfeita esta identidade. Eu Sou!

Desafio final

Para a concluir o artigo, retomo o caminho socrático que tínhamos percorrido ao início, e lanço o desafio ao leitor de reflexionar sobre o tema da verdade. Em primeiro lugar, como um tema bíblico: Quem ousaria chamar-se verdade? Em uma época onde a filosofia não estava em alta. Os Árabes não tinham desenvolvido muito sua filosofia. Os gregos que viviam lá eram pagãos e os textos de Aristóteles e Platão foram traduzido tempos depois do grego para outros idiomas. Aparece um tal profeta, Jesus de Nazaré e diz de si mesmo. Eu sou a verdade! Não, eu tenho ou eu digo a verdade. Mas, Eu sou! Eu sou a Verdade, o caminho, que entendemos ser o único, a verdade e a vida. Chamar-se vida? Fonte de vida, fonte de ser.

Caminho e vida é perfeitamente analógico com a verdade, por que para entender precisamos de luz, que é  verdade. Como os nosso olhos não podem ver sem luz, nosso entendimento não pode compreender nada sem a verdade. Caminho por que nos tira da dúvida, da escuridade intelectiva. E vida por que não é nos lugares escuros que se produz autentica vida senão onde existe luz, onde existe verdade e não ilusão ali existe vida em abundância.

O segundo desafio é no campo filosófico especulativo e consiste em fazer um mínimo esforço para ler coisas e encontrar um sentido. Analisar e não somente constatar que alguém possui uma opinião e basta. O método crítico, não é uma falta a caridade, não é ofender ninguém. É pensar e digerir o alimento que nos entra pela mente. Assim como nosso estômago faz com qualquer coisa que comamos, mas nossa mente não possui um órgão automático porque se supõe que o ato intelectivo faz esta digestão adequada à medida que consome. Você já sabe que conhece a verdade, e que possui critérios profundos; E confrontar com a filosofia só vai ajudar a ampliar seu sistema imunológico contra o lixo intelectual que existe no mundo.

Qualquer tipo de relativismo absoluto, pragmatismo ideologias materialistas podem e de fato entram em nosso modo de conceber as coisas, sem que percebamos. As vezes se não é, senão pelo cheiro não notamos que a água está contaminada e o fato de “cheirar as coisas” cognitivas te ajudará a defender-se das inúmeras doenças de nosso tempo.

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