se conhecesses o dom de Deus

Alguma vez já fixou o olhar em uma obra de arte sem realizar nenhum outro ato além de contemplar? Acho não pouco importante considerar como um misterio a história como realidade. História em geral ou  particular de uma civilização ou atémesmo nossa história pessoal, origem e fim. Entre as diversas manifestações, a arte é algo especialmente belo da história humana. Um lugar deserto, um poço e alguém que se aproxima para descansar. Seria um belo quadro, representação do misterio real de um Deus que se aproxima de sua criatura.

O que passa pelos sentidos deve possuir uma medida, um equilibrio, ser dosado. Cada orgão sensorial possui um limite próprio. O que acontece com que escuta musica com o volume extremamente alto? Sua sensibilidade muda. Acho que não diverso quando se trata da sensibilidade mesma. Nos tornamos super sensíveis e isso nos leva um tipo de insensibilidade. Homo sentimentalis, que trasfoma as coisas mais simples em complexas. Os dramas humanos elementais, como a morte, a liberdade ou até mesmo o amor. Se tornam no homem atual uma imagem gastada e caricaturizada perdendo sua essencia sublime e nobremente humana.

É dificil decidir para qual lado se tende, se ao desespero ou a indiferença. Mas o problema está em porque devemos tender para um lado ou outro? Quem nos ensinou que as coisas devem estar sempre em contrastes extremos? Porque quando digo que uma obra de arte é bela outro me responde que existe outra mais bela? E mesmo que chegassemos a um acordo sobre os criterios estéticos para uma autentica obra de arte, não seria de igual modo algo que nos brilhou aos olhos? Talvez o exercício lógico e teorético nos tira um grande tesouro, a oportunidade de somente contemplar aquilo cuja a beleza se fez evidência a nossos pobres sentidos.

Caros leitores, porque é tão dificil uma vida profunda de oração? porque a promessa do evangelho de que os puros de coração verão a Deus, não se cumpre? O que hipnotizou os sentidos ou misturou os corações com algo que não é propria da essência Divina? Existe atrás de tudo isso um materialismo arrogânte, que suprimiu os desejos excelsos de um coração contemplativo.

Convido o leitor a fazer uma prova. Busque o silêncio durante todo um dia e se isso te trazer tristezas ou melancolia, é sinal de que já perdeu ou esta perdendo uma capacidade humana importante. É prórprio da natureza humana a relação, na qual em primeiro lugar é consigo mesmo, não de modo egoísta, mas uma experiência de sua própria humanidade. Elevar o espírito a Deus, porque é Ele a pessoa que de nenhum modo estará ausente, e buscar no profundo de nossa humanidade o gosto de contemplar as dois únicas realidades que subjetivamente importam, Deus e eu. Digo subjetivamente, porque é só o que está a nosso alcance no fim das contas. Não podemos mudar as pessoas por dentro, seus gostos, seus desejos e ambições, sua visão do mundo e anseio pela salvação da própria alma. Tudo o que fazemos para o outro é um convite, que pode condicionar muito ou não tanto, dependendo do caso. Mas cada um dará um passo livre em seu interior.

Um temor que tenho é de que as pessoas tenham perdido sua capacidade de rezar e se já não podem perseverar na oração, trilhamos um caminho utópico na busca de virtudes, que mesmo sendo boas, não nos contacta com o criador e seu amor Divino. Esta capacidade falhida vemos tambem no modo em que nos relacionamos com os bens terrestres, como estamos inquietos diante de alguem que pode transmitir a nós sabedoria, mas não aquela que gostariamos de ter. Fazemos nossos planos, é parece que olhamos para o futuro como se fossemos um tipo de profeta ou mago do tempo, quando não somos capazes de realizar bem o que temos para hoje. Assim já não se aprende a amar. Ninguém pode pensar que um dia amará sua esposa e filhos, se hoje não ama seu irmão e seus pais. De fato, se não entende o que é o amor, é utópico pensar que saberá com o mero passar do tempo sem nenhum exercício.

Permaneça alguns minutos diante de uma obra de arte ou paisagem para contemplar sua beleza. Ver os detalhes, de ponta a ponta. Pensar no seu criador e em que estava pensando quando a elaborou. Em outras palavras, amar aquela paisagem ou obra de arte, a seu modo, colocando-a no seu lugar de criatura. Vem a impaciência? lutemos.  Euforía eficientista, lutemos. Se acaso aparece a monotonia, lutemos. É, no final se trata em um pouco de luta, mas sáiba que não será assim sempre, só até retomarmos esse hábito perdido de amar as criaturas como criaturas. E de algun modo deixar-nos contemplar por elas, pela aquela obra ou paisagem. Disso se trata a sensibilidade justa, não só captar mas ser captado pelo objeto. Não em um golpe de vista possuir intelectualmente aquela beleza, mas deixar o coração aberto para inamorar-nos dela. É um risco? Sim, mas esse foi o risco que correu Cristo e Ele se inamorou de nós,  e até o extremo nos amou.

Retornando a imagem descrita do quadro. Agora contemplemos aquela cena, onde além de um quadro, encontramos  outros elemementos. Somos nós ao mesmo tempo, Cristo e a Samaritana. Como criaturas vemos a Deus, sem enteder bem o mistério diante de nós, mas o fitamos profundamente e permaneçemos em sua beleza. Depois como participantes na obra da criação e redenção do mundo, vemos a fragilidade e a simplicidade das coisas inferiores a nós. Possuímos o desejo de transformar tudo aquilo que parece se perder e guardar no coração toda beleza encontrada, estirpando toda feiura própria de uma criatura imperfeita e manchada pelo pecado. Aquele quadro feito por mãos humanas, e aquela paisagem feita por mãos Divinas. O que em nós é de Deus e o que em nós foi feito por nós mesmos.

Se depois de ficar algum tempo diante desta contemplação nada mudar. Então terá chegado a um nivel muito baixo de insensibilidade. E não falo de sentimentos, mas de certa serenidade e paz interior ao relacionar-nos com uma realidade exterior a nós, que não nos empurra a um ritmo frenético senão que nos convida a pensar na transcendência de nossa própria vida. Nunca é tarde de mais para contemplar e conhecer os dons de Deus.

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