Quanto pesa o amor?

Série: Quem é o Homem do Sudário? (5)

Por que é tão difícil amar hoje em dia? Por que chega um momento em que se acaba o encanto pelo outro e tudo se torna tão pesado? Amar deveria ser doce e prazeroso como nos mostraram nos romances e contos de fadas, onde tudo parece suceder numa alegria eterna. Onde ficou o “feliz para sempre” do amor?

Entretanto, o Santo Sudário nos apresenta uma imagem muito diferente do que podemos exigir do amor. Sem dúvida, o mais impactante da contemplação deste Homem é saber que, desfigurado como está, amou até o extremo aos seus que estavam no mundo (Cf. Jo 13, 1). Foi flagelado, coroado de espinhos e carregou uma cruz na qual foi crucificado, ou seja, portou até as últimas consequências a sua Paixão. Onde ficou o “feliz para sempre” do amor?

Descobertas arqueológicas nos comentam como eram realizados os processos de crucifixão, que dividiremos em: caminho à cruz, crucificação e morte, de acordo com os próximos artigos. Os condenados eram sempre conduzidos às aforas da cidade. Isso implicaria uma caminhada de 800m feita por Jesus da Torre Antonina ao Gólgota. Cada um portava a sua cruz, podendo ser de três tipos: infelix lignum, um tronco onde se cravava o réu; Crux simplex, uma tábua de 2 metros com o mesmo procedimento da anterior; e as mais cruéis de todas: Crux commisa, na forma de Tau e Crux immisa ou Cruz latina, na qual foi crucificado Jesus.

O condenado levava a haste horizontal da cruz (patibulum), atada aos braços e pulsos. Esta possuía um peso de 20 a 30kg. Para dificultar uma possível fuga, os soldados romanos amarravam o braço esquerdo ao pé esquerdo do condenado, e se houvesse outros réus, atavam o pé esquerdo deste ao braço esquerdo do seguinte e assim sucessivamente.

O Dr. Judica-Cordiglia comenta em sua análise do Santo Sudário que ao observar a região dos ombros da imagem, se identifica uma área de contusão com área de aproximadamente 10centímetros na região escapular. Parece haver sido provocada pela fricção de um objeto rugoso que retornou a abrir as feridas antes causadas pela flagelação e produziu outras novas.

Quem imaginaria que fosse carregar um patíbulo, barra de madeira antigamente usada para fechar portas, aquele que abriria os portões do céu à humanidade? Tudo isso por puro amor. Talvez então a dificuldade do amor não seja algo tão atual assim. Sempre existiu e provavelmente existirá até o final de nossas vidas. A maior prova disso é o próprio Homem do Sudário.[1]

Mesmo que a nossa cruz de cada dia seja bem diferente daquele patíbulo carregado por Cristo, ela se manifesta de uma maneira bem concreta em nosso dia-a-dia. Na família, no matrimônio, no trabalho, nas relações sociais, sempre há momentos difíceis de cruz que podem ferir, dais quais gostaríamos de livrar-nos o mais rápido possível. Algumas vezes conseguimos fugir, mas quando não, a carregamos em meio a resmungos.[2]

É certo que gostaríamos de viver em um estado de alegria constante, mas esta não pode ser plena e imediata ao mesmo tempo. A verdadeira felicidade é algo construído pelo amor em meio a momentos altos e baixos, mas especialmente nos últimos é que aprendemos a valorizá-la. Porque o amor não foge do sacrifício, mas o afronta.

Já mencionamos nesta série o difícil de imaginar todo o sofrimento de Cristo no processo de sua Paixão. Mas é importante notar que a sua cruz não era somente física, mas também espiritual. Sendo Ele o próprio Deus, alheio a todo mal, assumiu para si a total negação de si mesmo, os pecados de toda a humanidade. Como qualquer ser humano, passou por aquele momento quando parece que as nuvens fecham o céu e já não existe nenhuma luz. Porém, na oração descobriu que não deveria fazer a sua própria vontade, mas a do Pai (Cf. Lc 22, 42)

Pode ser que o amor às vezes nos custe tanto porque quereríamos realizar somente a nossa própria vontade e não a do outro, enquanto “o amor possui sempre um sentido de profunda compaixão, que leva a aceitar o outro como parte deste mundo, mesmo quando age de modo diferente daquilo que eu desejaria. ”[3]

Os mesmos Santos são testemunhos da necessidade da renúncia de si na hora de amar. “Amor meus, pondus meus”[4] (Amor meu, peso meu), dizia Santo Agostinho. Porque descobriu em sua vida um exemplo de amor tão grande no sacrifício de Cristo, que esse passaria a ser o centro de gravidade, o peso de sua vida, que o conduziria à felicidade. Não podemos nunca nos cansar de amar porque não podemos cansar de ser felizes.

Vivamos então a nossa cruz de cada dia com muito amor. Seguindo o chamado de Jesus “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz de cada dia e siga-me.” (Lc 9, 23), na confiança de que quanto mais perto do calvário, mais próxima está a ressurreição, pois depois da noite sempre vem a aurora.

Senhor, meu Deus, dai-me a força para carregar a minha cruz de cada dia. Perdoai-me por todas as vezes em que desesperado pela debilidade, não lembrei que Vós carregais a minha cruz junto comigo. E não me permitais nunca ter o olhar abaixado, porque más além deste mundo está a ressurreição.

 

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[1] Car. A. Cañizares, H. Guerra e J.P. Ledesma, Cristo Nossa Páscoa. Lucerna.

[2] Ibid.

[3] FRANCISCUS PP., Amoris Laetitia, n.92

[4] SANTO AGOSTINHO, Confissões 19, 9, 10.

 

 

 

Créditos da foto: Waiting For The Word

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