Ilustríssima Senhora…

São Luis Gonzaga ingressou na Companhia de Jesus aos 17 anos de idade, dizendo adeus ao mundo e as riquezas de uma futura vida de príncipe. Mostra que seus maiores tesouros na terra também foram confiadas a Deus. Depois do seu ingresso uma das únicas vezes que voltou a encontrar sua amada mãe, passou todo o tempo a seu lado em oração, e o silêncio de ambos mãe e filho, foram grande demonstração de fé, daqueles que tem toda a eternidade para serem felizes juntos.

Segue a cita da última carta que enviou a sua mãe. O Santo morreu em 1591, na idade de 23 anos. Essa carta se encontra no breviário, na leitura correspondente ao dia de sua morte; 21 de junho.

Ilustríssima senhora, peço que recebas a graça do Espírito Santo e a sua perpétua consolação. Quando recebi tua carta, ainda me encontrava nesta região dos mortos. Mas agora, espero ir em breve louvar a Deus para sempre na terra dos vivos. Pensava mesmo que a esta hora já teria dado esse passo. Se é caridade, como diz São Paulo, chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram (cf. Rm 12,15), é preciso, mãe ilustríssima, que te alegres profundamente porque, por teus méritos, Deus me chama à verdadeira felicidade e me dá a certeza de jamais me afastar do seu temor.

Na verdade, ilustríssima senhora, confesso-te que me perco em arrebato quando considero, na sua profundeza, a bondade divina. Ela é semelhante a um mar sem fundo nem limites, que me chama ao descanso eterno por um tão breve e pequeno trabalho; que me convida e chama ao céu para aí me dar àquele bem supremo que tão negligentemente procurei, e me promete o fruto daquelas lágrimas que tão parcamente derramei.

Por conseguinte, ilustríssima senhora, considera bem e toma cuidado em não ofender a infinita bondade de Deus. Isto aconteceria se chorasses como morto aquele que vai viver perante a face de Deus e que, com sua intercessão, poderá auxiliar-te incomparavelmente mais do que nesta vida. Esta separação não será longa; no céu nos tornaremos a ver. Lá, unidos ao autor da nossa salvação, seremos repletos das alegrias imortais, louvando-o com todas as forças da nossa alma e cantando eternamente as suas misericórdias. Se Deus toma de nós aquilo que havia emprestado, assim procede com a única intenção de colocá-lo em lugar mais seguro e fora de perigo, e nos dar aqueles bens que desejamos dele receber.

Disse tudo isto, ilustríssima senhora, para ceder ao desejo que tenho de que tu e toda a minha família considereis minha partida como um feliz benefício. Que a tua bênção materna me acompanhe na travessia deste mar, até alcançar a margem onde estão todas as minhas esperanças. Escrevo isto com alegria para dar-te a conhecer que nada me é bastante para manifestar com mais evidência o amor e a reverência que te devo, como um filho à sua mãe.

Depois de ler esta carta, podemos pensar que estas palavras são próprias de um religioso nos momentos de sua morte, porem aqueles que conhecem a historia de São Luis, sabem que sua morte ao mundo começou a muito tempo. Ele viveu como se já estivesse no paraíso ou como se a vida eterna fosse uma realidade tão próxima que tudo que existia no mundo o viu com o olhar sobrenatural; Com os olhos da sua Divina Majestade.

Diversos missionários partem de suas terras para nunca mais voltar, ou somente regressam para aumentar a saudades daqueles que deixou. Mas isto não pode ser visto de nenhum modo como egoísmo ou uma natural facilidade para viver como estrangeiro.

O próprio São Luis disse a seu pai, que se Deus não o tivesse chamado, o que mais daria alegria ao seu coração, era cumprir a sua vontade e assumir como marquês os três reinos que receberia de herança. Longe dos apegos mundanos o mais difícil foi não satisfazer a vontade de seu pai na terra, que não coincidia com a de Deus.

Muitos são os religiosos, que por causa da missão a qual Deus os chamam, devem estar longe das pessoas que amam. Não só sabem dos sofrimentos que passam aqueles a quem deixaram, mas se unem a seus sofrimentos. Porem, são testemunhos de fé, de que nos momentos de tristezas, devem olhar com amor aos grandes desígnios  da Divina Majestade. E pensar como o jovem São Luis, que com somente contemplar a vontade de Deus para nós, se nos enche o coração de tanta felicidade, imaginemos o que não nos dará no paraíso?

 

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