Além da honra e da Glória

PARA O CRISTÃO NÃO EXISTE TRAGÉDIA

Algo que atraia muito os pagãos ao cristianismo era o testemunho de cada cristão. Eram verdadeiros mártires (Testemunhas). Isto nos mostra que a busca pela verdade não é uma intenção meramente intelectual mas vai acompanhada pela coerência naquilo que se professa.

O mistério da ressurreição era algo ainda mais fácil de acreditar, quando os mesmos cristãos, depois de professar a vida eterna, preferiam as feras a negar sua fé. Não podemos deixar de salientar quanto impacto causou na sociedade greco-romana homens dispostos a viver até o extremo o que professavam.

Este fato histórico mostra uma grande diferença entre o cristianismo e as outras religiões do Império Romano. Por exemplo na literatura grega clássica são famosas as tragédias. Obras teatrais onde a história termina com um triste final, mostrando a fatídica condição humana e suas limitações.

O destino era o grande mistério para todos e ninguém ousava contrariar o que dizia o oráculo de Delfos. Aparte dos mitos e da literatura, estes textos possuem também seu valor histórico enquanto narra o que passava no coração do homem. Mostra o medo da morte, ou de um abandono a uma vida sem sentido, honra ou valor. Existiam uma busca da verdade transcendental no querer saber qual era o destino proposto para cada um.

Se até mesmo os deuses gregos, não escapavam do destino, isso prova que havia algo fixo e superior. Um ponto importante a qual ninguém pode fazer frente. Apesar da visão determinística, não se pode negar a transcendência do destino à realidade em que se vive.

O destino não pode ser contrariado. Quando se tinha uma vida miserável, a única coisa que possuía de valor era a própria vida, mas que valor era o da vida? O fato de viver era o único bem-estar pelo qual todos lutavam, até mesmo os cães.

Assim chegaram os primeiros cristãos. Rompendo esquemas e trazendo a verdade que todos buscavam. Com o anúncio do evangelho davam respostas a perguntas tão íntimas ao coração do homem que arrastavam multidões. Para os sábios filósofos, a surpresa foi o uso de suas filosofias para dar razões da fé cristã. Por que se estão buscando a verdade e essa é uma só, logo estão buscando a mesma Verdade.

Morrer devorado pelas feras é um escândalo, a menos que a vida tenha um valor que pode ser cedido por algo mais grande. O mistério para os pagãos era que os cristãos pensavam em estar salvando suas vidas, deixando-se matar. Incoerência ou coerência? Contradições? O cristão não sofria por causa do destino mas confiava em algo que parecia ultrapassar o mesmo destino. Para eles existia um Deus, que era amor e a ressurreição era certa. Para os Cristãos não existam tragédias.

E por causa de estas sementes de verdade que haviam nos povos antigos, puderam entender esta ação não como um suicídio, mas como um sacrifício. A verdade perene encontrada através dos cristãos dava sentido ao maior paradoxo da vida humana e denunciava as calunias dos hipócritas manipuladores do mundo. A história parecia começar a percorrer um caminho de luz.

O IMPÉRIO CONTRA ATACA

Quando falamos de rationes seminalis, queremos dar um significado não menos Cristológico que quando citamos o livro do Gênesis: “Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram” Gen 1:26-28. O Logos, (λόγος) deixou na história sua marca com a encarnação, mas desde a própria criação podemos dizer que existiu uma preparação para a vinda do Verbo Eterno.  Dizer que existe desde sempre no coração do homem sementes de verdade não é nenhum tipo de panteísmo, nem um tipo de ideologia. Mas é simplesmente dizer que o que foi criado foi criado por e para o Criador.

Virando a história do avesso poderíamos dizer que uma sociedade cristã, poderia ser transformada por “missionários pagãos”? Se eles chegassem a nossas terras com novidades transformadoras, que tornam a vida mais fácil e mais simples. Aumentando a alegria e o prazer e afastando a dor e o sofrimento, coisa que a sociedade cristã nunca soube fazer?

Eu acho que sim e não de modo menos eficaz com que a cristandade transformou a antiguidade. O único critério que parece funcionar para tal transformação é a verdade. Um povo que se transformou pela verdade, já não poderia deixar-se levar pela mentira, mas, e por meias verdades?

Quando uma pessoa é enganada não é tão difícil convencê-la de deixar o engano e aceitar um caminho correto. Mas quando é enganada duas vezes ou pelo menos pensar ter sido enganada. Tudo parece ser suspeito. O jogo do relativismo é o de falsificar a verdade, como alguém que muda de religião duas vezes por frustração e no final adota uma religião do “nada” porque já é incapaz de confiar plenamente em uma nova doutrina.

Para evitar uma possível paganização humana, não é preciso inventar coisas novas, a fim de querer jogar com as armas do inimigo. Mas aprender sua estratégia nos poderia ajudar a defender o que nos caracteriza por ser a única opção sensata para não dizer correta. A verdade nos defende e a coerência com ela é o brilho essencial de nossa fé.

Quando escrevemos algo e o publicamos na internet, nos damos conta da divisão social que existe no mundo. Ao mesmo tempo se percebe uma tentativa de reunir todas as coisas em baixo do título da verdade. Tudo é opinião e toda opinião pode ser igualmente verdadeira quanto falsa. Depende do público que o aceita e o acolhe.

Devemos nos perguntar se publicar no “Facebook” uma mensagem com a imagem de Jesus Cristo, dizendo “se você ama a Jesus compartilhe” se logo depois da nossa piedosa imagem vem outra, criticando um político, com ofensas e piadas.  Se por um lado existe uma setorização externa, onde o cristão só existe na Igreja, e quando está no trabalho é outro. Nos meios de comunicações se tenta criar uma homogeneização conceitual, onde tudo se transforma em expressão e adquire um mesmo valor.

Parece ser algo inofensivo. Mas se pensamos que o cristão piedoso que antes meditava a palavra de Deus. Quando vê a mesma palavra na página em internet, não á medita, mas dá um “Like” e logo segue vendo outras coisas que são mais interessantes, se banaliza o vital colocando junto com o supérfluo. Vemos que algo mudou no modo de viver a fé. Uma fé mais veloz e superficial. Um “Like” parece garantir o ser cristão. Evangelizar uma pessoa assim é falar á ela do que pensa já conhecer muito bem.

VERDADE FALSIFICADA

Num mundo tão pragmático podemos confundir as verdades com invenções e ignorar aquilo que nos é revelado por meio do mundo, da história e do próprio homem. Com o desenvolvimento tecnológico a sociedade parece estar assumindo outra identidade. Como um tipo de espectador do mundo. Pouco a pouco se tornará não mais que um motor do progresso universal. O homem vive para o desenvolvimento, o mundo parece ter ganhado vida própria e se faz distinção entre o homem e a sociedade. Como se uma sociedade não fosse composta de pessoas.

A massificação nos trouxe um paradoxo para a evangelização. Unir ao ritmo do mundo ou frear o ritmo acelerado em que a coisa acontece. É preciso de fato encontrar nossa identidade no mundo de hoje, porque o Cristianismo não é uma religião entre as outras, tampouco um encontro com um conceito abstrato, mas com uma pessoa. E é no mundo pessoal que o cristianismo se dá. E na lógica que não falha, se o homem que constitui a sociedade perde a capacidade de encontrar-se com seu Deus Criador, a sociedade (entendida como massa) nunca poderá encontrar. Ou seja, o progresso não nos levará a nada.

Mas quando lemos críticas sobre o mundo moderno e vemos em revistas ortodoxas de apologéticas, que dizem que o mundo vai para um caminho equivocado. Que o fim dos tempos está por vir. Nossa reação é; como alguém pode não fazer alguma coisa em relação a isso? E quase sempre permanecemos iguais depois de entrar no ritmo do mundo. Como? Será que não somos conscientes do que acontece?

Existem pessoas que sim fazem muito pelo mundo. Porem existem uma grande maioria que se tornaram os espectadores do mundo. Isso acontece porque para aqueles que já assumiram uma identidade tão diluída até o ponto de não fazer nenhum rumor no mundo, são usados como massa representativa. Aqui é onde o pragmatismo ganha força. Por isso fazer que a sociedade perda sua identidade, faz com que assuma qualquer outra que se apresenta.

Diminuem a qualidade de formação, fazendo com que tenham menos capacidade de notar as imperfeições dos ideais propostos. Ou na mesma formação vem infiltrado as ideologias, como verdade única. A ”Ideologia de gênero” nos faz plantear a pergunta em como pensarão a sexualidade as pessoas nos próximos 50 anos? A ideologia de gênero tende a falir-se como ideologia, porque busca integrar-se de tal modo que já não se faça distinções. Mas o efeito querido com ela é outro.

TEMPOS DE COMBATE

Agora estamos em tempos de guerra, e apesar de que não gostamos das guerras não podemos evitar o fato de estar no meio dela. Despertar o intelecto para as coisas que acontece no mundo. Formar um bom juízo crítico sobre as coisas é de fato um primeiro passo.

Seguramente existe um desconforto e até tristeza em tudo que se experimenta hoje. Mas começamos o artigo dizendo que para um cristão não existem tragédias. Pelo simples fato de que a verdade está e sempre esteve do nosso lado. Somos agora perseguidos de outro modo, mas a confiança que possuíam os mártires devem ter a mesma intensidade em nós. Mas que esta confiança não nos faça descansar. Porque ainda existe luta. Para um cristão na arena, manter sua fé inabalável ainda que sustentado pela graça de Deus tem seu mérito.

Os leões rugem, os incrédulos gritam irascivelmente contra nós. Nossas emoções sofrem uma prova de fogo, o coração sente a dor e a angustia naturais do homem. E imitando a Cristo no horto das oliveiras, dizemos; Pai seja feita a vossa vontade!. Mas depois devemos nos levantar para seguir rumo ao calvário.

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