A Ressurreição e o Sudário

Cristo vive! Nos diz o Pregão Pascal: “Sabemos que Cristo ressuscitou, Tu Rei vitorioso, tem piedade de nós”.[1] Mas como a mortalha de um Homem nos pode falar de sua vida? Apesar dos sinais evidentes da morte de Jesus presentes na Síndone, ela não deixa de surpreender-nos com imagens de vida. Foi o Sudário, no silêncio do sepulcro, “testemunha ocular” da Ressurreição do Senhor.

Curiosamente, ao final desta série de artigos, nos encontramos justo ao início da história deste lençol de dois mil anos. Mesmo nos dias atuais, não podemos saber como foi produzida a imagem do Sudário, mas comumente se associa este momento ao da ressurreição. Diversas tentativas de reproduzir a gravura do Sudário foram realizadas por especialistas, mas nenhuma totalmente satisfatória. Nunca nos foi possível reproduzir uma imagem com tal perfeição como a do Sudário.

As marcas do Homem da Síndone se encontram somente na superfície do tecido, não penetrando a totalidade deste. Uma teoria recente, com a qual inclusive chegou a contribuir a NASA, é que o corpo de Jesus deve haver emitido algum tipo de radiação ou luz muito intensa para gravar a sua própria imagem no tecido. Algo talvez semelhante com o sucedido com algumas pessoas submetidas à radiação em Hiroshima e Nagasaki.

Se crê que a radiação deve ter sido de tipo volumétrico, ou seja, equivalente em todo o corpo, marcando o Sudário de acordo com a distância entre corpo e tecido. Isso explicaria o porquê da maior claridade em partes como o nariz, com maior contato com o pano e também do fenômeno “sfumato”, pelo qual o corpo não tem marcas definidas, desaparecendo gradualmente.[2]

De todas maneiras, a radiação não deve ter sido nem tão fraca a ponto de não transpassar o Sudário, nem tão forte ao ponto de queimá-lo completamente. Foi algum tipo de radiação que não conhecemos atualmente, capaz de tocar o tecido, oxidando-o, e ultrapassá-lo posteriormente.

Uma outra teoria afirma que o Homem do Sudário é consequência da reação do sangue, suor, mirra e aloés, doados por José de Arimateia(Cf. Jo 19, 39), com o gás amoníaco resultante da decomposição do corpo. A mistura dessas substâncias causaria uma reação química que marcaria o tecido com a imagem do cadáver. Essa proposta caiu por si mesma. Uma mistura de substâncias reagentes pode causar manchas, mas nunca poderá produzir uma imagem perfeita como a do Sudário.[3]

Além dos estudos sobre como se produziu a imagem, um fator muito interessante que contribui à afirmação da ressurreição de Jesus é o “Rigor Mortis”. O corpo de Jesus se encontra quase na mesma posição em que foi crucificado. A Medicina Legal nos diz atualmente que em casos de morte violenta, a pessoa sofre uma espécie de rigidez mortal imediata. Este “Rigor Mortis” costuma durar em média 48 horas até o corpo começar a retornar a sua flacidez normal. O feito de que o corpo do Homem do Sudário ainda se encontre nesse estado é sinal de que não esteve envolvido pelo pano por mais de dois dias.[4]

A ausência de decomposição de Jesus é uma confirmação final ao afirmado pela tradição da Igreja Católica: a sua carne não conheceu a morte. Em um duelo entre morte e vida[5], entre feridas mortais e amor que dá vida, Cristo é o Rei vitorioso que rompe as cadeias do pecado e o vence com a sua caridade, “porque o amor é mais forte do que a morte” (Ct 8,6).

A Páscoa marca o momento extremo do amor de Cristo. Como já bem falamos, a Redenção não veio pelo sofrimento em si mesmo, mas pelo amor com que o Redentor os carregou. Nos atrevemos a afirmar desta maneira que não é possível existir a cruz sem a Páscoa, pois o “até o extremo nos amou”(Jo 13,1), mais que o mero carregar a cruz, é Aquele que venceu a morte e nos trouxe a Vida Eterna. O Sacrifício sem Redenção Pascal não teria nenhum sentido. “A vitória de Cristo comunica-nos a certeza de que o sepulcro não é a meta última da existência. Deus chama-nos à ressurreição e à vida imortal.[6]

Vivamos então essa Páscoa em ação de graças com esse ato extremo de Amor que nos deu o Redentor. Sem nenhum mérito de nossa parte, recebemos o maior presente que poderia receber uma pessoa. E ainda assim, por tantas vezes perdemos este prêmio gratuito da Redenção trocando-o pelo pecado. Mas é esse “até o extremo os amou” que nos permite renovar sempre a nossa amizade com Ele, cada vez que nos disponhamos a retornar aos seus braços.

Senhor Jesus, obrigado por redimir-nos de nossa debilidade pecadora. Ajudai-me a compreender que sem o Vosso amor extremo eu não sou nada, mas com ele sou tudo. E já que pela Vossa ressurreição se curam todas as feridas causadas pelo pecado, dai-me a confiança na Vossa misericórdia e livrai-me de toda condição de tristeza e desespero por causa da morte, porque Vós sois vida. Fazei-me viver a Vossa Páscoa em mim.


[1] “Scimus Christum surrexisse a mortuis vere: Tu nobis, victor Rex, miserere”

[2] José de Palacios Carvajal, La Sábana Santa: estudio de un cirujano. Estudio de Tinta.

[3] Ibid.

[4] Ibid.

[5] “Mors et Vita duello conflixere mirando” – Pregão Pascal

[6] Discurso de São João Paulo II ao contemplar o Santo Sudário, Turim, 24 de maio de 1998.

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